Por Millena Evylin
“A vocês peço licença agora/ Para contar minha história em canção/ Para dizer de onde vim, aonde estou/ Para cantar pelo fim da escravidão”.
Versos como esse, da capoeira angola baiana, não são somente uma manifestação cultural, mas também uma forma de construir uma sociedade menos racista. Esse é o tema de pesquisa recentemente concluída por Niviane Oliveira de Souza na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
No estudo, ela destaca os possíveis usos da história da capoeira angola, especialmente de suas cantigas, na educação antirracista, como estratégia para uma melhor inclusão das relações étnico-raciais e da musicalidade da cultura afro-brasileira no ambiente educacional.
“A gente vive em um país pluricultural, mas que muitas vezes invisibilizou o negro, e trazer a voz da população negra por meio da cantiga é muito significativo. “Trazer as cantigas da capoeira pra escola é um convite para que se realize a escuta desses anônimos. Entendo que a musicalidade vivenciada no cotidiano da capoeira pode transmitir para seus membros narrativas antes silenciadas dos povos diaspóricos”.
Niziane é professora do ensino médio em Ibirapitanga (BA), na região cacaueira.
A pesquisa analisa como a oralidade e os versos cantados nas rodas criam métodos de resistência que permitem à população negra a reafirmação de identidade e a preservação da memória coletiva. A dissertação destaca que as cantigas são uma forma de promoção do protagonismo negro. Ao cantar sobre a luta e a resiliência, segundo a autora, essa musicalidade promove uma reeducação para as relações étnico-raciais, sendo um processo permanente de letramento racial e desconstrução de preconceitos estruturais e fornecendo, assim, uma prática educativa que visa à formação de uma consciência crítica e igualitária no ambiente escolar.
Segundo Niviane, a ideia de criação do projeto surgiu em 2018 quando ela assistiu a um capoeirista de seu município chamado Léo Bahia realizando uma apresentação de capoeira na escola. O encontro foi inusitado. Havia um teatro em que os alunos dramatizaram e declamaram as letras das cantigas intercalando com o jogo de capoeira. Essas atividades eram realizadas durante um projeto da Consciência Negra na escola onde ela leciona até hoje.
Ela cita que, alguns anos atrás, encontrava resistência dos professores e que não sabia exatamente por onde começar, mas o desejo de trabalhar com a capoeira no espaço educacional lhe encontrou ao assistir à apresentação.
“Nesse momento, a capoeira me sensibilizou mais uma vez, me alcançou de forma significativa e me fez refletir sobre a sua potencialidade multirreferencial”, lembra.
A pesquisadora ressalta que seu estudo deu mais visibilidade ao mestre Cobra Mansa, referência internacional na capoeira e hoje morador do território conhecido como Kilombo Tenondé, em Valença (BA). Na década de 80, o mestre participou do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), o que favoreceu o processo de revitalização e internacionalização da capoeira na época em que o mestre Pastinha estava já no fim da vida e a capoeira angola estava em declínio. Inspirando-se em um encontro com o mestre Cobra Mansa, por meio de diálogos, aquilo que seria uma cartilha enquanto produto final do projeto de pesquisa tornou-se algo tão amplo que virou um e-book.

O material didático já foi publicado e conta a história de grandes capoeiristas da linhagem pastiniana, que é uma referência de grande relevância para os professores trabalharem com os alunos em sala de aula. Niviane explica que o e-book é voltado não só para o professor da educação formal, mas, por ter uma linguagem acessível, consegue alcançar também fazedores de cultura, mestres e os próprios capoeiristas.

O trecho com que abrimos o texto é da cantiga “Vim no navio de Aruanda” e é uma das músicas favoritas da capoeirista Nathália Tarlher, que pratica o esporte em Trancoso. “É uma das músicas que tem uma melodia linda e emociona demais, conta uma história e nos faz imaginar tudo aquilo com tristeza mas também com uma certa paz”, diz ela.
A letra relata:
Vim num navio de Aruanda, Aruanda ê
Vim num navio de Aruanda, Aruanda á
Mas por que me trouxeram de Aruanda
Pra que me trouxeram de Aruanda
Vim num navio de Aruanda, Aruanda ê
Vim no balanço do mar de Angola
Vim no balanço do mar de Guiné
Vim no balanço do mar de Moçambique
Só quem veio sabe como é
A vocês peço licença agora
Para contar minha história em canção
Para dizer de onde vim, aonde estou
Para cantar pelo fim da escravidão
E canoeiro
Canoa virou do mar
Canoa virou no mar, canoeiro
Canoa virou no mar
Negro morrer de peste
Para o senhor era normal
Minha gente foi o alvo
De todo tipo de mal
Trabalhando sem descanso
Dentro do canavial
O povo negro apanhava
Construindo o capital
E canoeiro
Canoa virou do mar
Canoa virou no mar, canoeiro
Canoa virou no mar
Composição de Augusto Iúna / Domínio Público / Mestre Virgílio / Tony Angola.
Nathália relata que desde muito nova teve contato com a capoeira por meio de amigos e, por essas influências, passou a treinar na Casa da Cultura, um espaço onde são realizadas as aulas de capoeira com o grupo Capoeira Sul da Bahia, em Trancoso.
“A capoeira, por si só, já é um movimento antirracista, então perceber que você faz parte de algo que te pertence, que é seu por direito, te faz se sentir mais resistente”, conclui.
De acordo com Niviane, o estado da Bahia tem incentivado a capoeira na escola por meio do Educa Mais Bahia. Em 2024, houve a criação e a aprovação da Lei Moa do Katendê, demanda dos próprios capoeiristas, que levou essa manifestação cultural para a escola e incentivou o trabalho da capoeira nos espaços educacionais.
“Durante um evento, eu tive a oportunidade, em uma sala de aula, de fazer, em forma de oficina, algumas cantigas, discutir com os alunos também. Fui bem recebida ao contar sobre essa metodologia, os professores prestaram atenção, os alunos que estavam ali também prestaram atenção”, relata a professora.
“Em uma educação que, historicamente, ensinou a negar a sua identidade, quando se canta: sou nego nagô, sou nego nagô, meu pai foi escravo, mas eu sou doutor, entendemos a importância da representatividade”, conclui.
Caso queiram saber mais sobre a dissertação, segue o link para acesso: Educação e História da Capoeira Angola: memórias cantadas em tons de resistência