Por Kamila Rocha
— O que começou como uma pesquisa de mestrado se transformou em um projeto inovador: um aplicativo desenvolvido com alunos, que ajuda professores a utilizarem Role-Playing Game (RPG) como ferramenta pedagógica. A iniciativa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnicos-Raciais (PPGER) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
A pesquisa desenvolvida pela professora Martha Matos, no Complexo Integrado de Educação Básica de Porto Seguro (CIEB), analisou como o RPG pode promover um ensino interdisciplinar e crítico, tendo como base o conto “Filhos de Sangue”, da escritora afrofuturista Octávia Butler.
Além de trazer suas próprias vivências de como o RPG foi importante em sua formação, Martha destaca o jogo como metodologia de ensino que contribui para o entendimento nas relações sociais no ambiente escolar.
‘’O RPG, ele é importante para mim como pessoa, eu sou uma pessoa com autismo. O que desenvolveu a minha fala e a minha capacidade de entender social foi o RPG […] A metodologia é importante para tirar o poder da mão do professor e fazer o professor entender que ele também pode aprender junto’’, afirma.
‘’O RPG, ele é um jogo que trabalha muitas coisas. Ele trabalha narrativa, ele trabalha matemática, ele trabalha sociologia, ele trabalha geografia’’— destaca o oficineiro João Vitor.

O uso de metodologias ativas na oficina permite que os alunos explorem temas complexos e desenvolvam autonomia, criatividade e trabalhem de forma interdisciplinar no espaço escolar.
‘’Eu sou apaixonada por ciências e me incomodava muito a divisão dos professores de dizer, isso aqui é de ciências, isso aqui é de redação […] eu olhava pros professores e falava, não acho que isso tá certo porque eu aprendi tudo junto fazendo RPG’, ’acrescenta a pesquisadora.
Ao interpretar personagens no jogo, os alunos são levados a pensar a partir de outras perspectivas, o que amplia sua capacidade de argumentação e reflexão. As mudanças também aparecem nas interações sociais dos jovens. Entre esses jovens está Pedro Alcântara, de 17 anos, estudante e participante da oficina de RPG. Ele destaca como as práticas de RPG foram importantes não só para seu desenvolvimento, mas também em sua vida:
‘’Eu aprendi algo muito único, que foi me comunicar. Eu sempre fui uma pessoa extremamente quieta durante o ensino médio, o ensino fundamental. Eu não sabia falar com ninguém, isso até dentro de casa e, ao chegar no RPG, foi uma mudança de 360° graus. Eu aprendi a realmente falar com as pessoas […] não foi só aprender a me comunicar, mas fazer amigos’’.
A professora exemplifica também com a história de Danilo, estudante com dificuldades de aprendizagem e uma escrita difícil, que surpreendeu ao tirar 880 pontos na redação do Enem. “A nota não resume o aluno. Não, a nota não resume, mas o presente para a família dele que foi esse 880, entende? Porque eu não resumo a nota. Eu resumo o cara que conseguiu escrever’’, afirma.
‘’Os alunos que vão para o RPG, normalmente não sabem o que falar, eles não têm uma prática de fala, eles não conseguem muitas vezes se comunicar ou expor os seus pensamentos. Quando eles vão para o RPG, depois de um tempo no RPG, eles começam a conseguir passar suas ideias, eles começam a falar, meu personagem faria isso, é meio que um pseudônimo […] é por causa do RPG, eles começam a conseguir falar, começam a conseguir apresentar trabalhos, fazerem seminários’’, ressalta João Vitor sobre o avanço dos alunos.
A continuidade da oficina para além da pesquisa, que inicialmente resultou em um manual de RPG feito por alunos, permitiu que João Vitor e os alunos desenvolvessem o aplicativo ‘’Vida Aventureira’’, que reúne regras, personagens e informações necessárias para criar e jogar RPG de forma acessível.‘’Nós vamos ter um banco de dados todo certo em um aplicativo. A pessoa só entra lá, faz o que ela quer, tem a ficha e começa a jogar, é simples.’’- explica o oficineiro João Vitor.

Além disso, um encontro aberto ao público com mesas de RPG e diversos jogos está sendo preparado. O evento, previsto para setembro, também será um espaço para discutir educação, literatura e a formação de novos educadores. Já o lançamento do aplicativo ‘’Vida Aventureira’’ está previsto para dezembro, inicialmente para aparelhos Android. Ambas as atividades devem ocorrer ainda este ano.
O que é RPG e como ele funciona
O RPG (Role-Playing Game, ou Jogo de Interpretação de Papéis) surgiu nos Estados Unidos na década de 1970, com a criação de Dungeons & Dragons, inspirado em jogos de estratégia e narrativas de fantasia. Desde então, o RPG se espalhou pelo mundo, assumindo diferentes formatos e temas. Jogar RPG envolve criar personagens fictícios e interpretá-los em uma história conduzida por um narrador — também chamado de mestre ou mestre de jogo. Os participantes descrevem as ações de seus personagens, tomam decisões baseadas em suas habilidades e valores, e interagem com o cenário proposto, muitas vezes usando dados para definir o sucesso ou fracasso das ações.
Mais do que um jogo, o RPG é uma experiência coletiva de criação de histórias, tomada de decisões e resolução de conflitos, que pode ser adaptada a diversos contextos — inclusive o educacional e emocional dos alunos, como demonstrado na pesquisa. ‘’O RPG não resolve todos os problemas, mas ele me ajudou muito a ser sociável a conseguir brincar, me ajudou muito a ser pessoa a ver o lado do outro a entender como o outro pensa […] Então, a perspectiva do RPG para outro espaço é pensar na qualidade de vida dos meninos’’, ressalta a pesquisadora.
Orientada pelo professor Francisco de Assis Nascimento Junior, a pesquisa Aventuras da Escrita no Ensino de Ciências: Afrofuturismos e jogos de RPG em práticas interdisciplinares de oficinas de redação está disponível para consulta no acervo de dissertações, no portal do PPGER.