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Ação criada no sul da Bahia promove educação antirracista pelo país

Por Isabela Lima

— Movido pelo compromisso de combater a desigualdade racial por meio da educação, o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em parceria com a União de Negros e Negras pela Igualdade (UNEGRO), desenvolveu a iniciativa Educar para reparar: Orçamento Público e Educação Antirracista. O objetivo da ação é capacitar cidadãos negros para que compreendam e atuem de forma crítica, influenciando e participando da elaboração e execução de orçamentos públicos, com o intuito de promover uma educação básica inclusiva e antirracista.

O curso ocorre em formato híbrido, dividido em cinco módulos, com atividades online e presenciais. Os encontros ao vivo aconteceram em vários estados, com presença em cidades como Porto Alegre, São Paulo, Brasília e Salvador, e mais um está agendado em Porto Seguro, no dia 26 de agosto.

Palestras ao vivo, ministradas por especialistas, são disponibilizadas no AVA

A proposta do curso surgiu ao encarar um diagnóstico da realidade atual, demonstrando como principal fator a omissão pública no desenvolvimento de medidas inclusivas, resultando em racismo estrutural que se manifesta na precariedade da infraestrutura escolar, na falta de formação antirracista dos profissionais da educação e nas baixas taxas de permanência e desempenho dos estudantes negros. Por meio do conhecimento sobre financiamento público, o curso visa fortalecer as demandas por políticas que efetivamente atendam às necessidades desta comunidade, possibilitando o entendimento do papel da educação para a superação das injustiças raciais, além de fomentar a mobilização social diante dos processos orçamentários e reduzir as desigualdades históricas vividas pela população negra no Brasil.

“Nós começamos a observar que, no âmbito das universidades, a entrada de pessoas negras era invisibilizada, uma invisibilização das ações dos pensadores e pensadoras negros. Mas além disso, nós vimos que as pessoas não sabem ou não têm acesso à informação de como elas conseguem financiamento pra um projeto relacionado à, o que eu chamo, de ‘maioria minorizada’. Tem aí, um cerceamento da informação”, destaca o professor e pesquisador Richard Santos, responsável pelo projeto.

O curso tem como uma das principais ferramentas o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), no qual se articulam diferentes formas de interatividade, acesso dinâmico a conteúdos multimídia e ferramentas digitais que conduzam à participação ativa de cada indivíduo. Essa abordagem torna o processo de ensino-aprendizagem não apenas dinâmico e interativo, mas também culturalmente significativo, promovendo a multiplicidade de caminhos que possibilitam uma integração equilibrada de conteúdo teórico e prática real, estimulando e exercitando a criticidade e o protagonismo dos cursistas. Segundo Richard, os participantes são encorajados a debaterem sobre os temas abordados: “Estamos usando a sala do Google Class Room para ofertar as aulas, então tem gente de Manaus ao Rio Grande do Sul. Eles fazem a aula, a palestra e depois você faz a sua pergunta, faz o debate sobre o tema. Previamente, você já leu o material, já respondeu questões na sala do Google e depois dessa aula, você também vai ler material, responder questões na sala do Google relacionada à sua temática”. 

O início de cada módulo do curso oferece uma apresentação expositiva sobre o tema principal. As palestras ao vivo, ministradas por especialistas, são gravadas para, posteriormente, serem disponibilizadas no AVA. Além disso, o espaço virtual fornece conteúdos, leituras obrigatórias, sites e aplicativos para aprofundamento de estudo, organização do curso e monitoramento das atividades dos participantes, permitindo que cada um tenha uma experiência de aprendizagem mais ampla e organizada.

“Começamos com a professora Ynaê Lopes, contando a história do racismo na educação brasileira e contando porque que a gente, geralmente as pessoas negras, desde o século 19, não conseguem abrir escola, não consegue acesso à financiamento, não consegue dirigir espaços, dirigir universidades”, conta o professor ao relembrar o primeiro encontro presencial, ocorrido em Porto Alegre. 

Conforme exibido pelo programa, o objetivo principal é capacitar indivíduos como Agentes de Promoção da Igualdade Racial, proporcionando o conhecimento necessário para o acesso a recursos públicos e destacando a importância desses recursos na efetivação de políticas que atendam às demandas da população negra brasileira.

“Extensão não precisa ser somente estudante universitário. A gente quer formar essa maioria minorizada, essas pessoas que estão trabalhando no sindicato. Em Salvador, tem o Sindicato das Baianas de Acarajé. Elas precisam entender que podem se juntar e pleitear uma verba ou um financiamento para melhorar a gestão delas”, expõe o pesquisador.

“De modo geral”, ele acrescenta, “é um projeto de insurgência, da gente para a gente, mas não somente pela gente. Para todo mundo que se quer antirracista, não somente para negros”, conclui.

O programa ainda aponta a importância de cada encontro ser realizado em espaços públicos, evidenciando que a ocupação desses, que segundo o pesquisador — não historicamente são ocupados por pessoas como a gente — é uma provocação à entrada dos corpos afro-brasileiros aos espaços de poder.

“A gente precisa acreditar que nós não nascemos para sermos historicamente subalternizados, não achar que o senhor ali é doutor porque é branco”, critica Richard Santos. 

A ação recebe financiamento do Ministério da Educação, pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) e pretende abrir novas vagas do curso no próximo ano. 

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