Por Stéfane Rocha
— Um projeto do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) está utilizando o chamado DNA ambiental (eDNA) para identificar espécies na Mata Atlântica, trazendo o que é considerado um avanço inédito para o monitoramento da biodiversidade no sul da Bahia. O método foi utilizado na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Estação Veracel, em Porto Seguro, revelando espécies raras, ameaçadas e até invasoras.
“Essa abordagem reduz tempo e custos em comparação aos métodos convencionais, e é especialmente relevante numa região que abriga alguns dos maiores remanescentes de Mata Atlântica do país”, diz o biólogo Thiago Mafra, coordenador do projeto.
A técnica consiste na coleta de fragmentos de DNA deixados por animais no ambiente, como pelos, saliva, fezes ou urina. Segundo Mafra, os achados modificaram a visão que se tinha sobre a mata no local: “Detectamos dezenas de espécies, muitas ausentes do Plano de Manejo da RPPN, o que reforça o potencial dessa ferramenta”.
As coletas foram realizadas em cinco pontos de poças permanentes e córregos que foram definidos pela acessibilidade e variação de densidade florestal. A estudante Leila Santana, que liderou a pesquisa sob orientação de Mafra, explica que essa metodologia “permite monitorar ambientes de forma rápida e eficiente, detectando espécies difíceis de serem observadas”.
A escolha da RPPN Estação Veracel, explica ela, se deu pela extensão territorial e importância para a conservação no Nordeste brasileiro. Com 6.069 hectares, a unidade é considerada a maior RPPN de Mata Atlântica da região e abriga espécies endêmicas e ameaçadas. Mafra acrescenta que a ideia nasceu de uma conversa com a gestora da reserva, Virgínia Camargo, após o registro de uma onça-pintada por armadilha fotográfica em 2017. “O alto custo e as dificuldades logísticas para manter câmeras-trap nos motivaram a testar uma técnica menos invasiva e mais abrangente”, conta.

Leila esteve à frente das expedições, coleta, filtragem e extração de DNA no Laboratório de Genética e Biologia Molecular da UFSB. Entre os resultados mais marcantes está a detecção de DNA da onça-parda (Puma concolor), do tatu-canastra (Priodontes maximus), de pequenos marsupiais e até do javali (Sus scrofa), espécie invasora. Thiago destaca que também foi identificada uma possível nova espécie de anfíbio, o que “abre novas frentes para estudos taxonômicos e de conservação”.
O trabalho enfrentou desafios logísticos, especialmente para acessar áreas de mata densa e garantir a integridade das amostras até a filtragem em laboratório. Ainda assim, os dados já estão sendo utilizados para subsidiar ações de conservação. “Essas informações podem atualizar listas de espécies e planos de manejo, orientar a criação de corredores ecológicos e apoiar medidas de proteção a habitats prioritários”, ressalta Mafra. Para Leila, além do impacto científico, a experiência foi marcante na formação profissional: “Aprofundou minha formação, despertou ainda mais meu interesse pela conservação e me deu segurança para seguir na pesquisa científica”.