Povo indígena do norte de Minas replanta florestas para curar suas terras ancestrais

Projeto Hãmhi Terra Viva une os Tikmũ’ũn/Maxakali à universidade e movimentos sociais
31 de maio de 2026
Povo indígena do norte de Minas replanta florestas para curar suas terras ancestrais
Crédito: Aline Valente

Por Aline Valente

O nordeste de Minas Gerais e o sul da Bahia foram palco de uma histórica resistência dos povos indígenas de línguas macro-jê da região. Foi ali que aconteceram a Guerra dos Aimorés e a Guerra dos Botocudos. E um dos povos combatidos pela colonização foram os Maxakali, hoje cerca de 2.700 pessoas, habitantes de quatro áreas entre os municípios de Teófilo Otoni, Bertópolis, Santa Helena de Minas e Ladainha.

Para fustigar os Maxakali, uma das estratégias escolhidas pelos colonizadores foi desmatar as densas florestas da região, a partir das quais os indígenas mantinham sua guerrilha contra os fazendeiros. Como escreveu o Frei Serafim de Gorízia no século XIX, “enquanto houvesse mata haveria correrias de índios”, conforme lembra a pesquisadora Rosangela Pereira de Tugny. E o resultado disso foi que as terras desse povo terminaram, ao longo dos séculos, completamente devastadas.

Um ambicioso projeto, agora, busca começar a mudar essa realidade. Desde o início do projeto Hamhi (termo que significa “terra viva”, na língua maxakali), em 2023, 17 viveiristas e 30 agentes agroflorestais Indígenas foram capacitados para implementar áreas de recuperação ambiental e quintais agroflorestais nas Terras Indígenas do povo Maxakali. Um ambiente antes marcado por pastagens ressequidas e capoeiras estéreis está mudando radicalmente.

Crédito: Aline Valente

Os Maxakali chamam esses agentes de “pais” e “mães” da floresta, como se percebe pela fala de Zé Antoninho Maxakali, coordenador do grupo de agentes agroflorestais. “Fizemos curso, plantamos mudas de bananas, frutas, mangas, jacas, coco. E agora já tem mais de um ano. Fizemos quintais em todas as aldeias: Pradinho, Água Boa, Aldeia Verde, Aldeia Escola Floresta. Está bonito de verdade. O Hãmhi é muito forte”, comemora ele. 

Zé Antoninho Maxakali – Crédito: Aline Valente

O líder indígena também exalta a participação dos espíritos da natureza cultuados pelos Maxakali no processo de recuperação ambiental: “Os yãmĩyxop também fortalecem o Hãmhi. Ajudam a tudo ser bom. Para a mata sair. Como era antigamente. O sol tem estado muito forte, direto. Mas a mata vai voltar e vai refrescar. A partir de nosso trabalho, vamos ter sombra. Estou plantando em volta de toda a aldeia”.

O Projeto Hãmhi Terra Viva prevê a implementação de 300 hectares de área de reflorestamento e de 60 hectares de Sistemas Agroflorestais (SAFs). Com ênfase na agroecologia e saberes tradicionais, o projeto vem promovendo a recuperação da Mata Atlântica e fortalecendo a soberania alimentar, numa iniciativa que visa transformar paisagens, restaurar a autonomia da comunidade e preservar a cultura de um povo.

A professora Rosângela Pereira de Tugny, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), é uma das coordenadoras do projeto. Em 2025, acompanhamos uma de suas visitas à comunidade de Pradinho, no município de Bertópolis. No trajeto até a aldeia, basicamente atravessamos áreas extensas de pastagem, com quase total ausência de vegetação nativa. Na divisa entre Minas e Bahia, o povo Maxakali, que se autodenominam Tikmũ’ũn (nós, povo gente) ocupam um território fragmentado, mas profundamente enraizado com os seus mitos, saberes, cosmologia e com sua resistência. 

Pajé Manuel Damásio Maxakali e a professora Rosângela Tugny (UFSB) – Crédito: Alie Valente

Os Tikmũ’ũn preservam sua língua originária, que é falada por cerca de 2400 pessoas, segundo o Censo de 2022, e práticas culturais que desafiam séculos de violências e deslocamentos. As duas maiores comunidades dos Maxakali são Pradinho, localizada em Bertópolis, e Água Boa, em Santa Helena de Minas. Juntas, essas duas aldeias constituem a Terra Indígena Maxakali e somam 5.305 hectares. Outras três pequenas reservas completam a área atualmente disponível para esse povo, que outrora ocupava um território muito mais amplo: a Aldeia Verde, situada em Ladainha (522 hectares), a Reserva Cachoeirinha, no distrito de Topázio, em Teófilo Otoni (544 hectares), e a Aldeia Escola Floresta, também em Teófilo otoni, com 122 hectares. 

Tugny chegou ao território há mais de duas décadas e, há dois anos, junto a um grupo de pesquisadores, desenvolve iniciativas para promover o reflorestamento, a recomposição ambiental e florestal, além da autonomia alimentar dos Tikmũ’ũn. “É grave essa injustiça ambiental que eles sofreram ao longo dos séculos, perdendo as matas, perdendo os recursos, perdendo também a autonomia alimentar, a soberania alimentar. Eles viviam uma situação muito degradante, num território ambientalmente muito degradado”, aponta ela. 

Ela explica que o Hãmhi atende a reivindicações históricas dos Tikmũ’ũn e surgiu a partir do suporte do Ministério Público de Minas Gerais, com apoio da Plataforma Semente, do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Apoio Comunitário, Inclusão e Mobilização Sociais (CAO-Cimos) e do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CAOMA). É realizado pelo Instituto Opaoká e atualmente, conta com importantes parceiros, como o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, o Instituto Cabruca da Bahia, a Teia dos Povos, FUNAI e o Programa Arboretum. 

O Hãmhi tem como referências o trabalho desenvolvido no Assentamento Terra Vista, em Arataca (BA), e a formação de Agentes Agroflorestais Indígenas inspirou-se no modelo de promovido pelo Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC). Em outubro de 2023, o agente agroflorestal Josias Maná Huni Kuin, da Terra Indígena Rio Jordão (Acre), ministrou o primeiro curso de formação do projeto. “Os agentes agroflorestais indígenas do Acre são uma categoria profissional reconhecida enquanto uma profissão. É uma formação que é muito bonita, forma lideranças muito significativas para os povos indígenas do Acre. Então nós nos inspiramos muito nesse modelo de lá”, afirma Tugny. 

Pressionado pela expansão pecuarista que moldou o norte de Minas Gerais desde o século XIX, o povo Tikmũ’ũn seguiu confinado em um território esgotado. A chegada dos capins colonião e braquiária, implantados pelos colonos como forragem para o gado, representa a degradação ambiental que ainda hoje compromete a biodiversidade local, impedindo o ciclo natural de renovação da vegetação e favorecendo os incêndios nos períodos de seca. Em relatório enviado ao Serviço de Proteção aos Índios, em 1939, e publicado posteriormente na Revista de Antropologia (1958), o etnólogo Curt Nimuendaju já denunciava a devastação nas terras Maxakali:

“Hoje, porém, já dois terços desse paraíso dos índios lavradores e caçadores, que estava coberto de mata ininterrupta, estão transformados em vastas pastagens de capim-colônia, na sua maior parte sem uma única rez, pelos intrusos.”

Nos municípios onde se concentram as principais aldeias dos Maxakali, a pecuária extensiva continua sendo a atividade rural dominante. Trata-se de um modelo de exploração da terra que esgota recursos e aprofunda desigualdades. Nas aldeias, a produção agrícola é escassa e, em muitos casos, não supre sequer as necessidades básicas de alimentação da própria comunidade. As roças, frágeis e pouco férteis, refletem um território empobrecido por séculos de espoliação. 

Outro problema é a falta de acesso às fontes de água potável. A vegetação nativa das Áreas de Preservação Permanente (APPs) foi suprimida, comprometendo as nascentes e córregos que alimentavam as comunidades. Apesar do reconhecimento legal das Terras Indígenas após a Constituição de 1988, Tugny explica que os Maxakali ainda aguardam por uma revisão demarcatória que reconheça a extensão real de seu território ancestral. Os limites atuais não apenas ignoram sua história e mobilidade cultural, como os confinam em fragmentos de terra onde a vida se tornou quase insustentável.

O território atualmente ocupado pelos Maxakali, localizado nas cabeceiras do rio Itanhaém e às margens dos ribeirões Água Boa, Pradinho e Umburanas, foi descrito por Nimuendaju como originalmente fértil e de águas permanentes, propício para a lavoura e à caça, práticas do modo de vida Tikmũ’ũn. 

Memória e território

A perda de biodiversidade nas terras dos Maxakali é, também, uma ameaça à sustentabilidade ambiental e cultural dessas comunidades. A degradação dos recursos naturais compromete o modo de vida deste povo, que, historicamente, encontra na floresta não apenas sua subsistência, mas também sua identidade. 

A despeito das dificuldades extremas, os Tikmũ’ũn resistem com seus rituais e cantos, como explica Tugny. “Eles dizem que os bichos, por exemplo, desapareceram, mas eles mantêm os cantos dos bichos, e isso, de certa forma, é uma forma de permanência. Embora os Tikmũ’ũn tenham ficado muito tempo sem floresta, quando encontram com determinados animais que não estão mais presentes no território, é como se sempre tivessem convivido com eles”, conta ela. “É assim que a grande biodiversidade da Mata Atlântica nunca deixou de existir para eles: ela continua viva nos cantos.”

Para a pesquisadora, trata-se de uma espécie de “força espiritual”. “O Tikmũ’ũn tem uma força muito grande de ver plenitude onde nós achamos que tudo acabou. Eu acho que essa é a força deles também, a força espiritual é o que os manteve também é vivos, fisicamente, demograficamente, vivos enquanto um povo”, continua.

“O mundo deles é tão rico, e essa forma de lidar com essa plenitude do mundo faz com que eles mantenham comunicante essa relação deles com tudo aquilo que também para nós desapareceu.” 

As mulheres Tikmũ’ũn exercem um papel central na resistência do seu povo – são o “centro da força”, nas palavras de Tugny. O Projeto Hãmhi Terra Viva abriga um viveiro-escola, onde, majoritariamente, são as mulheres indígenas que atuam como viveiristas. Para elas, esses espaços vão além do cultivo e representam o “útero da floresta”: cada muda é cuidada como uma criança, um gesto que garante a continuidade da vida e da tradição. Segundo informações do projeto Hamhi, os viveiros-escola foram implantados em parceria com o CNPq, as Escolas Maxakali e as prefeituras dos municípios de Bertópolis, Santa Helena de Minas e Teófilo Otoni (onde estão localizados Pradinho, Água Boa e a Aldeia-Escola-Floresta). A estrutura contou com assessoria técnica do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais e do Programa Arboretum.

Crédito: Aline Valente

“As aldeias são fortes quando as mulheres são fortes, estão equilibradas, estão bem. Por isso que, para nós também no projeto, elas são centrais. E o trabalho delas tem mostrado isso: a competência delas, a força, a persistência. São aquelas que falam, que conduzem muitas das decisões que são tomadas nas aldeias”, aponta Tugny.

“Estamos aqui plantando sementes. Quando elas brotarem, nós ensacamos elas novamente. Aqui nós estamos criando muito bem as mudas. Em todas as aldeias estão cuidando bem, estão crescendo. Temos sementes de muitos tipos: jaca, manga… ”, explicou-me a viveirista Davina Maxakali, depois de interromper o trabalho que ela e seu grupo de mulheres faziam, sentadas no chão do viveiro. As mudas estavam organizadas em fileiras, em sacos plásticos, e a terra era preparada ali mesmo, no chão. Enquanto trabalhavam, elas conversavam entre si.

“Esse projeto que estamos fazendo com ajuda dos brancos é muito importante pra nós. Ele está ajudando a abrir nossas cabeças”, continua ela. “Eu fui uma das primeiras viveiristas do projeto. Sou da primeira turma. Hoje, perto da minha casa já tem muita coisa: jaca, manga, ingá, banana, tem muita variedade. Eu sei criar sementes, e meu filho também. Recebemos a equipe não indígena que nos orienta a plantar também. Nossas crianças estão comendo manga e jaca maduras e guardando as sementes para a gente plantar. Elas guardam dentro de garrafas plásticas e molham. Quando brotam, elas plantam. Estamos plantando com as crianças”.

Davina contrasta o histórico de agressões sofridas pelo território indígena com a realidade atual: “Antigamente, os brancos derrubaram a mata e plantaram capim. Mas, depois que o governo demarcou parte do nosso território, este aqui onde estamos, nós começamos a plantar árvores onde moravam esses fazendeiros que nos matavam. E não estamos plantando apenas madeira, plantamos muitas frutíferas também. Está muito forte”. “Não podemos deixar isso acabar”. 

A viveirista recorda que, recentemente, os Maxakali promoveram uma campanha para conscientizar os fazendeiros sobre os prejuízos causados pela prática das queimadas, comum na região: “Estamos todos cuidando da terra, fizemos a campanha ‘Não bote fogo!’. O que estamos fazendo é para nós mesmos, para os nossos filhos e netos. Para eles estamos plantando essas árvores, para que eles tenham como fazer fogueiras e casas. O trabalho da equipe que está aqui com a gente é muito bom. Estamos melhorando várias coisas”.

Tugny fala sobre as dificuldades enfrentadas pelo projeto e a resiliência necessária para seguir adiante: “São muitos desafios do ponto de vista técnico, porque é um território que foi totalmente transformado em pasto, e lá a gente tem esse desafio que é plantar com a presença do capim colonião”. Ela relata que o capim, com seu rápido crescimento, atrapalha o desenvolvimento das mudas plantadas para o reflorestamento e aumenta os riscos de fogo: “Os fogos têm se tornado mais frequentes com a alta das temperaturas, com a estiagem, com o aumento dos ventos. Mas a gente tem certeza que esse povo vai encontrar a forma de lidar com tudo isso e dar a volta por cima, porque eles estão muito mobilizados”. 

A despeito das dificuldades, a pesquisadora relata que, até agora, já foram plantamos em torno de 150 hectares de áreas de reflorestamento e 60 hectares de quintais agroflorestais. “É preciso que o projeto dure muitos anos para ver os resultados.”

Mortalidade infantil alarmante

As ações de reflorestamento e fortalecimento dos quintais agroflorestais não dizem respeito apenas ao meio ambiente ou à segurança alimentar, mas à própria sobrevivência coletiva. A dimensão dessa urgência foi confirmada em um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que apresenta um cenário alarmante sobre as condições de vida e saúde do povo Tikmũ’ũn/Maxakali. 

A pesquisa, baseada em dados oficiais de 2022, comparou os Tikmũ’ũn/Maxakali com a população não indígena residente nos mesmos municípios, além de indígenas e não indígenas de Minas Gerais e do Brasil. Os resultados apontam para uma situação de vulnerabilidade extrema, com indicadores de mortalidade infantil e estrutura etária que ameaçam a continuidade desse povo enquanto coletivo sociocultural. O estudo calculou taxas de mortalidade proporcional, coeficientes de mortalidade infantil e distribuição por sexo e faixa etária. 

Um dos dados mais alarmantes diz respeito à presença de idosos: apenas 2,4% da população Tikmũ’ũn tem mais de 60 anos, um índice drasticamente inferior aos registrados entre os não indígenas dos municípios vizinhos (17,9%), de Minas Gerais (17,8%) e do Brasil (15,9%). Essa estrutura etária invertida revela uma alta mortalidade precoce e uma expectativa de vida severamente reduzida. Ainda mais grave é o coeficiente de mortalidade infantil: 66,7 óbitos para cada mil nascidos vivos, quase quatro vezes maior que entre os não indígenas da mesma região (17,5 por mil) e mais que o dobro da média entre indígenas em Minas Gerais (26 por mil) e no Brasil (26,7 por mil). Os Tikmũ’ũn enfrentam hoje índices equivalentes aos observados no Brasil nos anos 1980.

O artigo “Estrutura etária e mortalidade proporcional entre os Tikmũ’ũn/ Maxakali: estudo descritivo, Minas Gerais e Brasil, 2022” foi publicado em 2025 na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde – Revista do SUS, do Ministério da Saúde. “Esses resultados [encontrados pela pesquisa] reforçam a necessidade de criação e implantação de políticas públicas visando intervir nas condições sociossanitárias e econômicas” conclui o estudo, assinado por Wagner Oda, Max Gasparini e Juarez Furtado.

Segundo os autores, essa realidade decorre de fatores históricos, econômicos e sociais profundamente enraizados, e não pode ser dissociada da negligência do Estado em assegurar direitos básicos. A ausência de idosos não representa qualidade de vida, mas evidencia o fracasso estrutural em garantir acesso à saúde, alimentação adequada, saneamento e políticas públicas de proteção territorial. Em sua conclusão, o estudo afirma que os Tikmũ’ũn/Maxakali enfrentam condições ainda mais graves do que a média da população indígena brasileira, que já se encontra em desvantagem em relação à população não indígena. Os pesquisadores destacam que é urgente que o Estado brasileiro reconheça essa desigualdade e implemente medidas estruturantes, como o fortalecimento da atenção à saúde indígena, o combate à insegurança alimentar e a proteção efetiva dos territórios.

“Eles vivem em uma situação de insegurança alimentar gravíssima e também um alto índice de mortalidade. É uma situação mesmo escandalosa. Então, qualquer projeto que traga para eles a possibilidade de ter o próprio alimento, alimento saudável e que seja também um alimento que eles reconhecem como um alimento dos seus avós, é muito importante”, afirma Rosângela Pereira de Tugny, professora da UFSB. 

“Já temos observado transformação nesse sentido. Abrir uma perspectiva para os jovens de futuro, que é essa possibilidade de permanecer no território, de melhorar o território, de fazer do território uma terra de abundância, uma terra de alimentos, uma terra de saúde, uma terra sadia também”, complementa ela. “Esperamos que esses jovens tenham capacidade técnica de trabalhar, mas também tem uma construção política, um entendimento da importância do fortalecimento dessa terra que é também o fortalecimento do seu povo e que eles possam com o tempo compartilhar esses conhecimentos com a sua comunidade.”

Em algumas áreas da aldeia, já é possível identificar os primeiros espaços recuperados, com presença de uma maior diversidade de plantas. Como as mudanças na paisagem, a animação da comunidade com as novidades trazidas pelo projeto também é visível. “Estão muito bonitas as roças daqui do Pradinho agora. Tem banana, laranja, goiaba. Tem alimento saudável, tem mamão, cana, abóbora, melancia”, diz Vitorino Maxakali, da Aldeia Vila Nova. Para ele, todo o ecossistema está em processo de recuperação: “Tem os bichos também que saíram daqui foi para longe, para fora, mas até 2030 nós estamos pensando que eles vão voltar. E as nossas crianças têm que ver os bichos que estão vindo para cá! A nascente fica seca com queimada fica seca, mas agora tá nascendo demais as coisas. Vai voltar a pesca, né? Não tem peixe mais tem que voltar pra gente comer e não dar doença”. 

Com a recuperação do meio ambiente, a saúde da comunidade vai voltar, segundo Vitorino: “Hoje [no futuro, em 2030] tem pouca doença. Medicina saiu também né? A criança não dá doença, não dá dor barriga, né? A medicina no mato nós não tinha mais. Qualquer coisa, tira, mistura, fazer remédio, toma remédio né? Tomar para dor de barriga, diarreia, dor de cabeça. A criança não dá doença, não dá dor barriga, né? As frutas, as folhas, tudo medicina”. 

Antônio Maxakali exalta a variedade de alimentos que estão sendo plantados, para garantir a soberania alimentar das comunidades:

“Eu trabalhei junto com o agente agroflorestal para plantar banana, milho, manga, goiaba para fortalecer nosso quintal e trazer alimento para nós e não precisar mais da cidade”. 

É importante nosso alimento para ajudar nossa aldeia. Aqui tem muita fruta, tem banana, caju, jenipapo também. E nós vamos cuidar. Nós plantamos tudo isso aqui e tudo cresceu”.

As falas de Antônio Maxakali evidenciam que o fortalecimento dos sistemas agroflorestais vem ampliando a autonomia, garantindo alimento para a aldeia e reduzindo a dependência de recursos externos. O cultivo dos quintais se consolida como estratégia de soberania alimentar e de permanência no território.

A paisagem ainda carrega as marcas da devastação: o capim alto, o chão seco, o horizonte aberto demais. Mas, aqui e ali, já é possível ver que as áreas plantadas começam a interromper a paisagem degradada: mudas protegidas crescem nos quintais, árvores jovens ensaiam sombra, e pequenos fragmentos de floresta reaparecem onde antes só havia vazio. Ainda é pouco diante do que foi perdido. Mas, para os Tikmũ’ũn, isso é um sinal de que a floresta não desapareceu, ela apenas esperava o momento para voltar.

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