Por Yasmin Figueiró
* (com aportes de Bianca Barrozo, Emanuelle Castro e Karina Cassimiro)
Um vilarejo rústico do litoral da Bahia, onde as ruas são de areia e o tempo parece andar mais devagar. Sem carros e sem postes de iluminação, Caraíva preserva uma atmosfera quase intacta, guiada pela lua, pelas estrelas e pelo encontro do Rio Caraíva com o mar. Entre a natureza robusta e a vida noturna animada, o vilarejo é o destino ideal para quem busca natureza, tranquilidade e cultura local.
Mas, como é apresentado em vídeos e anúncios que têm se espalhado pelas redes sociais, tudo isso, nos últimos anos, só se mantém na “baixa temporada”. Nos períodos de férias e feriados prolongados, Caraíva tem estado, quase sempre, superlotada, e exibe cenas mais parecidas com o que se vê em praias de Salvador ou Rio de Janeiro.
O poder público não divulga números específicos de visitantes para o distrito. De acordo com o Ministério do Turismo, no início de 2022, juntos, a cidade de Porto Seguro e seus distritos Arraial d’Ajuda, Trancoso e Caraíva somavam cerca de 75 mil leitos, com taxa de ocupação de 95%. Já em janeiro de 2025, Porto Seguro recebeu 327.235 visitantes, crescimento de 17% em relação ao mesmo período de 2024, segundo a prefeitura.
“Caraíva é igual um sorvete, cara. Um dia que essa areia não aguentar mais, vai virar uma lama só. Um colapso para sempre. É muito sensível”, disse-nos Zé Marreco, nativo e morador da vila por 54 anos, que morreu em abril deste ano. Ele cresceu entre pescadores, vivia próximo à igrejinha histórica do povoado e temia pelo futuro do lugar que viu se transformar.

Caraíva é considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como o vilarejo mais antigo do Brasil. Segundo o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contudo, o distrito passa por uma explosão demográfica associada à migração. A população local, em 2022, era de 13.214 mil habitantes. Em 2010, esse número era de 7.893 – um crescimento de 67,4% em 12 anos, portanto, muito acima da média nacional (6,5%), dos números da Bahia (0,89%) e superior até mesmo ao que vem sendo registrado no município de Porto Seguro como um todo (32,69%).
O LIMITE
Em fevereiro de 2025, a Prefeitura de Porto Seguro publicou, no Diário Oficial, o Relatório Técnico sobre a Capacidade de Carga Turística de Caraíva Velha, elaborado pela empresa Floram Engenharia e Meio Ambiente. O documento apresenta um diagnóstico ambiental e urbanístico da vila.
Entre os principais impactos apontados estão a sobrecarga dos sistemas de saneamento, abastecimento de água, energia, saúde e segurança, além do acúmulo e manejo inadequado de resíduos sólidos e da pressão ambiental direta sobre áreas sensíveis.
Como principal resultado, o estudo definiu a Capacidade de Carga Efetiva (CCE) em 1.375 pessoas por dia, número considerado limite para que os aspectos ambientais, sociais e culturais não sejam comprometidos.
Caraíva está inserida na área de influência da Reserva Extrativista Marinha de Corumbau e também integra o território do Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, ambos administrados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão ambiental dessas áreas.
Para Gustavo Vasconcelos, organizador do evento “Confia na Bahia” em Caraíva, o plano de carga é necessário. “O lance da capacidade de carga é totalmente plausível. Caraíva ainda não aguenta”, afirma. Ele reconhece que o aumento do fluxo turístico pode ser prejudicial para os moradores, que sofrem com a falta de saneamento e energia durante esses períodos.
No entanto, pondera que a realização de eventos também movimenta a economia local: “Gera muito emprego, do bugueiro ao cara que tem que pintar a parede, ao cara da elétrica, ao cara do bar. […] Isso ai para nós ajuda bastante”.
Apesar da definição técnica do limite diário, os números registrados na alta temporada indicam um cenário diferente. No dia 28 de dezembro de 2025, durante apuração da Ansuba, uma funcionária do Ecoticket afirmou que o fluxo diário de pessoas chegando a Caraíva ultrapassava 5 mil visitantes, quase quatro vezes acima do limite estabelecido pelo próprio plano municipal.
A divergência entre o teto definido de 1.375 pessoas por dia e o volume relatado na prática levanta questionamentos sobre a efetividade do controle de acesso e da fiscalização. O ICMBio foi procurado para confirmar os dados e esclarecer como é feito o monitoramento do fluxo, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
VERÃO, FESTAS E SUPERLOTAÇÃO
O verão baiano, entre dezembro e março, concentra festas como Natal, Réveillon e Carnaval. Em dezembro de 2025, a Secretaria de Turismo da Bahia estimou que mais de 10 milhões de visitantes circulariam pelo estado no verão de 2025/2026, superando o recorde anterior.
“Até mesmo essas questões das festas vão ser limitadas, porque vai ter decretos. Acredito que a gente vai usar esse estudo de capacidade de carga. Porque quando tem essas festas grandes, a gente sofre com isso”, afirmou-nos, à época, Zé Marreco.
Para ele, é necessário que a comunidade se mobilize para o endurecimento das regras de acesso ao vilarejo.
Entre 27 de dezembro de 2025 e 05 de janeiro de 2026, mais de 15 festas ocorreram simultaneamente na vila, além da programação regular de bares e pousadas. Entre os principais eventos estavam o Sal de Caraíva (27/12 a 03/01), Viva Caraíva (29/12 a 05/01) e Awê Caraíva (28/12 a 03/01), cada um com cinco festas e atrações como João Gomes, Saulo, BNegão e Criolo.
“O fluxo de festas em Caraíva é muito grande, e ai acaba faltando água, energia principalmente. […] E não sentem essa falta (os turistas) porque eles vêm, permanecem alguns dias e voltam para casa deles. Quem fica sofrendo somos nós (nativos)”, afirma Marilândia Andrade, nativa da região e funcionária do ICMBio.
Após a superlotação registrada no Réveillon 2025/2026, a vila, quando a visitamos, se preparava para enfrentar outro pico de movimentação: o Carnaval.
Dos mesmos produtores do AWÊ Réveillon, foi anunciado o Caranawê, com quatro festas privadas entre os dias 14 e 17 de fevereiro. Simultaneamente, aconteceria o CarnaSal, produzido pelo Sal de Caraíva, com duas festas privadas entre os dias 14 e 16 de fevereiro. Além dos eventos privados, ao menos oito blocos de rua deveriam ocorrer paralelamente.
Os produtores do AWÊ foram procurados, mas, quando questionados sobre os eventos em Caraíva, optaram por não conceder entrevista sobre o assunto.

CONFLITO E RESISTÊNCIA
Em novembro de 2021, a Associação dos Nativos de Caraíva (Anac) iniciou um protesto contra a realização de grandes eventos no vilarejo. Em nota publicada no Instagram, a associação declarou:
“SOS: Caraíva e Aldeia Xandó pedem socorro. Grandes eventos estão destruindo a Vila e nosso entorno. Somos Caraíva, somos nativos, somos indígenas, somos moradores. Defendemos os direitos das populações tradicionais e os direitos básicos humanos e o meio ambiente. Viemos por meio deste reivindicar pela proibição de grandes eventos festivos que só trazem impactos negativos para a comunidade e seu entorno. Defendemos as tradições, a cultura, o sossego do vilarejo e suas peculiaridades.”
Poucos dias depois, a Prefeitura de Porto Seguro publicou o Decreto Municipal nº 13.401/2021, limitando o público de eventos a 850 pessoas e estabelecendo horário de encerramento até a meia-noite, com exceção do Réveillon, que poderia se estender até as 4h.
Em outubro de 2024, a Anac, em parceria com o conselho deliberativo da Reserva Marinha de Corumbau, discutiu medidas para o verão 2024/2025. Ficou decidido que apenas eventos tradicionais, como forró, samba e bregão, poderiam ocorrer até as 4h, enquanto festas em desacordo com a cultura local seriam restringidas.
Segundo as normas, qualquer organizador deve solicitar autorização com antecedência mínima de 100 dias. O pedido é analisado considerando impactos ambientais e consulta à comunidade. Caso aprovado, a autorização é emitida pelo ICMBio.
Ronaldo Oliveira, coordenador da Resex Corumbau pelo ICMBio, afirmou à Ansuba que as festas sempre fizeram parte da rotina de Caraíva, mas que, após a pandemia, houve um aumento significativo desses eventos.
“Eles [turistas] participam das festas e no dia seguinte já vão embora, deixando resíduos e ampliando os impactos ambientais. Além disso, há uma pressão crescente sobre as áreas utilizadas para os eventos, incluindo terrenos recentemente desmatados”, critica o coordenador.
Oliveira também destaca as dificuldades enfrentadas pelo ICMBio na fiscalização. “O que essas festas ganham é algo astronômico, e por isso é difícil aplicar restrições eficazes. Muitas vezes, a multa é paga facilmente, e os organizadores acabam levando vantagem”, diz ele.
IMPACTOS NA POPULAÇÃO NATIVA
“Aqui é constante a luta por Caraíva. Não é fácil”, lamentou Zé Marreco.
Em dezembro de 2025, ele afirmava a nossa reportagem, com esperança, que a expectativa era de que aquele fosse o último verão das grandes festas na vila.
Janice Cardoso, filha de Zé Marreco, extrativista e representante do Conselho Comunitário e Ambiental de Caraíva (CCAC), refletiu em entrevista à Ansuba: “Com o processo de gentrificação, pessoas de fora chegam, compram aqui no nosso território, e cada vez mais os nativos vão se afastando do seu próprio território. E aí vem essa perda de cultura, de identidade”.
José Wagner, conhecido como Gamela, vice-presidente da Anac, também relatou: “Antigamente as pessoas vendiam sua propriedade porque não tinham conhecimento ou porque precisavam do dinheiro, mas hoje os nativos vendem conscientes porque não estão aguentando viver aqui”.
“Se você vai comer, se você enche o prato demais, começa a derramar, começa a sujar tudo, né? É igualmente assim, que eu vejo que as coisas estão desordenadas. ela traz uma série de coisas não legais, entendeu?”, compara Zé Marreco. E complementa, “Traz as coisas desagradáveis. Porque nem tudo é dinheiro. Nem tudo é dinheiro. Você tem que ganhar o dinheiro, você tem que curtir a sua vida, mas de uma forma sustentável”.
“Esses caras tem dinheiro e nós temos coragem. Coragem e os nossos direitos”, encerrou Zé Marreco, com a força de quem lutou por 54 anos em prol do lugar que nasceu.
Entre decretos, planos de carga e anúncios de grandes eventos, a vila caminha sobre uma linha tênue entre desenvolvimento econômico e esgotamento ambiental e social. Quando a música começa, o impacto parece invisível. Mas, quando o som cessa e os visitantes partem, quem permanece é a comunidade. E é sobre ela que recaem as consequências.