Por Aleff Cláudio
O Allmanaque Negro Comics é um livro produzido por estudantes da Escola Estadual Stella Matutina, em Minas Gerais, em parceria com o mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER), da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Gabriel de Oliveira Chácara. Professor de História formado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), ele utilizou as histórias em quadrinhos como forma de dar voz a heróis que muitas vezes não são vistos pela sociedade.

Gabriel Chácara destaca que as histórias em quadrinhos (HQ) sempre fizeram parte da sua vida, desde a infância até os dias atuais. Por isso, decidiu criar o Allmanaque Negro Comics, ao perceber que os quadrinhos também estavam presentes na vida de seus estudantes.
“Faltei muitas aulas para ficar lendo na biblioteca ou na praça da cidade quando era criança”, relembra. Para Chácara, às histórias em quadrinhos foram, por muito tempo, seus grandes amigos, principalmente durante o período em que estudava em uma escola militar, onde não se sentia aceito ou feliz.’’ Segundo ele, essa realidade mudou quando trocou de escola e conseguiu interagir mais com professores e colegas.
O Allmanaque traz histórias reais presentes no dia a dia de milhares de brasileiros, abordando a temática do racismo. Gabriel, junto com os alunos, transformou vivências em narrativas que mostram desafios e superações, dando vida a “super-heróis” baseados na realidade dos seus alunos.
“Dama Cintilante” é uma das histórias do livro e relata a trajetória da mãe de Bárbara Lopes. A narrativa mostra como o racismo pode estar presente dentro de casa, muitas vezes sem ser percebido ou sendo ignorado. A personagem é uma mulher negra que precisou sair de casa para descobrir seu “superpoder”: a aceitação de si mesma, com força e coragem para enfrentar o mundo, mesmo tendo seu brilho apagado dentro do próprio lar.
Em uma outra história, “Petter”, o protagonista traz uma frase marcante:
— “Eu pretendo fazer faculdade”, diz o jovem.
— “Isso não é para pessoas como nós, você acha que é capaz?”, responde a mãe.
A história apresenta um final positivo, mas reforça que nem sempre a realidade é assim. O racismo está presente tanto dentro como fora de casa.
O livro busca chamar a atenção de crianças e adolescentes ao abordar uma problemática essencial para a sociedade, mostrando que o racismo existe em diferentes espaços e que não deve ser silenciado.
“É a história dos nossos heróis negros”, destaca Isabely Ferreira ao se referir aos personagens retratados no livro. Ela é uma das alunas que participou da criação da obra. Segundo Isabely, o projeto ampliou sua visão, fazendo com que passasse a perceber o racismo no dia a dia. A estudante afirma ainda que a experiência contribuiu para sua formação pessoal e social.
Mariana Silva, que também participou da criação da HQ, conta que, desde pequena, os quadrinhos fazem parte da sua vivência. Seu pai, que é o seu super-herói, aparece no livro como o personagem “Raio Rubro”. Ela relata que já havia questionado o pai sobre o motivo de existirem poucas histórias com personagens negros nos quadrinhos, mas ele não soube responder.
Mariana também afirma que o projeto contribuiu para que ela entendesse mais sobre o assunto e influenciou diretamente sua escolha profissional. Hoje, ela cursa História na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Assim como Mariana, Roberta Teles também decidiu seguir o mesmo caminho, inspirada pelo professor.
Atualmente, o livro está disponível na página de mestrado da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER), e também na Escola Estadual Stella Matutina, onde o projeto foi desenvolvido.