Quando uma piada vira preconceito? Entenda o que é o racismo recreativo

13 de agosto de 2026
Quando uma piada vira preconceito? Entenda o que é o racismo recreativo
Imagem da personagem Adelaide, do progama Zorra Total, ultilizada nas oficinas e na pesquisa como exemplo da reprodução de estereótipos raciais por meio do humor televisivo. Crédito: Sara Ramalho

Por Aleff Cláudio e Sara Ramalho

Sem a preparação adequada de profissionais para lidar com situações de preconceito, os corredores das escolas podem se tornar palco para comentários sobre aparência, cabelo, origem ou características físicas. Para Júlia Machado, estudante do ensino médio no Instituto Federal da Bahia em Porto Seguro, muitas dessas falas são vistas apenas como brincadeiras pelos colegas. No entanto, por trás de piadas, existem estereótipos de grande peso histórico. A estudante de 16 anos conta que durante seu período escolar já presenciou diversos tipos de discriminação.

“Uma vez durante uma briga entre duas meninas; uma menina era branca e a outra era preta. Essa menina branca fez piadas racistas sobre o cabelo dessa menina preta, que no caso era crespo, disse que ela tinha o cabelo duro e que o seu cabelo era bem melhor e todo mundo começou a rir”, conta ela.

A normalização do racismo disfarçado de “humor hostil” entre jovens e adultos não surgiu por acaso. O estudo “Raça, graça e representação” defendido por Queven Rodrigues dos Santos, historiador e mestre pelo programa de pós-graduação em relações étnico-raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), explica justamente como o campo humorístico ocupa um espaço cultural muito relevante na sociedade brasileira. Quando a mídia reforça a exotização e a ridicularização de grupos racializados, especialmente de pessoas negras e indígenas, usando o entretenimento como desculpa, acaba influenciando na formação identitária de uma geração que cresce ligada à televisão e redes sociais, explica o estudo.

Queven Rodrigues apresenta a proposta das oficinas de formação sobre racismo recreativo e educação antirracista.

A motivação para investigar o tema surgiu da própria trajetória de Rodrigues. Nascido e criado no município de Ipiaú, cidade do interior da Bahia, ele conta que foi criado pela avó, que dedicou grande parte dos recursos da família à educação dos filhos e netos. Rodrigues explica que cresceu acompanhando novelas, programas de humor e outras produções televisivas que marcaram gerações de brasileiros.

Segundo ele, as representações raciais presentes nesses conteúdos, somadas às experiências vividas dentro e fora da escola, influenciaram diretamente a construção da pesquisa, que une sua memória, análise acadêmica e reflexão. “A pesquisa é principalmente sobre a minha própria vida, a minha história de vida. Eu fui por muitos anos o público-alvo desse tipo de produção também, porque, em algum grau, esse tipo de construção artística é construída e precisa cada vez mais se reforçar”, relata.

Uma das análises centrais da tese vem de um personagem que segundo o autor, marcou não somente a sua memória pessoal, como a de diversos telespectadores: Adelaide, “a mendiga do metrô” do programa Zorra Total.

A personagem, interpretada por Rodrigo Sant’Anna entre 2011 e 2014 nas esquetes do programa “Zorra Total”, tinha como recurso humorístico a prática do blackface – ato de pintar a pele com tintas escuras, usar perucas e outros artifícios para imitar e ridicularizar pessoas negras – e a fala caricata inspirada em estereótipos sobre moradores de periferias.

Rodrigues afirma que, assim como Adelaide, muitos dos personagens negros presentes na cultura brasileira reforçam um não-lugar para pessoas pretas, assim como moldam, a partir dos recursos culturais, visuais, estímulos auditivos e comportamentais, os indivíduos.

Os reflexos desse processo podem ser percebidos em experiências de vida como as de Islândia Pacheco, estudante do curso de Artes do Corpo em Cena da UFSB. Ao relembrar a própria trajetória, ela conta já ter se deparado com atos de bullying racial e normalização de piadas sobre aparência, cabelo e traços físicos, experiências que ainda fazem parte da realidade de muitos jovens negros e podem afetar sua autoestima.

“Eu já tive muitos apelidos. Tenho até uma poesia que fala sobre isso, sobre o meu cabelo, sobre a minha pele, sobre a minha boca. Eram apelidos ofensivos, como ‘beiço de vaca’ e ‘cabelo de tuim’. E nisso tudo o pessoal da sala caía na gargalhada. Eu me sentia obrigada, forçada na verdade, a alisar o meu cabelo para me sentir mais bonita, para me encaixar nesse padrão”, explica a estudante e poetisa.

As consequências desses estereótipos não atingem apenas a população afrodescendente. Em sua pesquisa, Rodrigues também chama atenção para a forma como os povos indígenas são retratados no ambiente escolar. Segundo o historiador, práticas como as comemorações do antigo ‘’Dia do Índio’’ – hoje, Dia dos Povos Indígenas – frequentemente reproduzem imagens folclorizadas e simplificadas das culturas indígenas, sem promover reflexões mais profundas sobre a diversidade e a realidade desses povos.

A cientista social, antropóloga e professora Isis Jikitaia conhece essa realidade de perto. Como mulher indígena pataxó, ela relata que frequentemente tem sua identidade questionada e precisa reafirmar sua origem diante de pessoas que insistem em enquadrar os povos indígenas em estereótipos e expectativas construídas socialmente. Para ela, a exotização e a descredibilização dos conhecimentos indígenas continuam presentes no cotidiano.

 “O tempo inteiro a gente é questionado, se nós somos isso mesmo, se a gente tem certeza que a gente é, e é um lugar que a gente tem que se reafirmar também o tempo. Então, é muito cansativo. Essa experiência de ser exotificada, de ser descredibilizada pelo meu pertencimento étnico, ela acontece na minha vida o tempo inteiro”, conta ela.

Jikitaia relata que os episódios de discriminação não partiam apenas dos colegas. Segundo ela, profissionais da própria escola onde estudou no ensino fundamental produziram discursos preconceituosos contra estudantes indígenas. O episódio marcante ocorreu quando ela e uma prima foram acusadas injustamente por outros alunos e chamadas para conversar com uma funcionária da instituição.

“A gente tinha sido acusada, pelos outros colegas, de fazer uma coisa que, na verdade, a gente não tinha feito. Mas sempre ficavam de olho na gente. Ela decidiu nos atender em momentos separados. Os dois outros colegas, que também estavam sendo acusados de estragar o quadro, ela atendeu primeiro. Depois, atendeu a mim e minha prima, que éramos indígenas, e começou a falar que, se a gente não mudasse o comportamento, que não aguentava mais as nossas reclamações na escola, que o nosso lugar não era ali, que iam colocar a gente na escola indígena’’, relata.

Assim como afirma Rodrigues, Jikitaia acredita que muitos profissionais não têm tempo para se atualizar sobre as novas demandas relacionadas às questões étnico-raciais e acabam não buscando outras formas de combater o racismo dentro da escola.

Como produto educacional de sua dissertação de mestrado, Queven Rodrigues desenvolveu uma cartilha voltada para educadores. Segundo o historiador, a construção de uma educação antirracista ainda é um desafio constante, o que motivou a elaboração de um material que reunisse reflexões, referências e propostas de atividades sobre temas como racismo recreativo, blackface e capitalismo racial.

Antes da elaboração da cartilha, Rodrigues e sua equipe realizaram visitas ao Colégio Estadual do Campo de Uruçuca (CEMUR), em Uruçuca, e à Escola Banco da Vitória, em Ilhéus, durante as atividades do mês da Consciência Negra em 2024. Os encontros tiveram como proposta criar um espaço de troca entre pesquisadores, educadores e estudantes sobre racismo estrutural e recreativo. Nas duas instituições, foi aplicada uma oficina-piloto com estudantes do ensino fundamental para avaliar o conhecimento dos participantes sobre o tema e identificar as principais dificuldades enfrentadas pelos professores ao abordar questões raciais em sala de aula.

A partir dessas experiências, foi possível estruturar o conteúdo da cartilha e o roteiro das oficinas, alinhando o material às demandas observadas no ambiente escolar. Pensada para educadores, estudantes e demais interessados, a publicação promete ampliar o acesso a conteúdos atualizados sobre relações étnico-raciais e incentivar discussões dentro e fora da escola por meio de uma linguagem acessível.

Cartilha ”Ta Rindo de Quem?” reúne reflexões e propostas de oficinas e atividades para auxiliar educadores no enfrentamento ao racismo recreativo e na promoção de práticas antirracistas nas escolas.

Para Rodrigues, o debate sobre racismo ainda ocupa pouco espaço nas salas de aula ao longo do ano. Essa percepção também é compartilhada por Isabele Ferreira, estudante do Complexo Integrado de Educação Básica, Profissional e Tecnológica (CIEB) de Porto Seguro, que afirma que o tema costuma ser abordado principalmente em datas comemorativas, embora alguns professores promovam discussões em outros momentos.

Com a cartilha, o pesquisador espera contribuir para que o debate sobre as relações étnico-raciais aconteça de forma contínua, e não apenas durante campanhas ou datas específicas. O material está disponível no site do programa de pós-graduação em relações étnico-raciais da UFSB para acesso de educadores, estudantes e demais interessados no tema.

VERSO_DEFINITIVA_02_DE_JUNHO_2026.pdf

Portal de Programas de Pós-Graduação (UFSB)

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