Por Ketrin Silva
O estudante que busca acesso à universidade pública no Brasil pode encontrar diversos obstáculos que vão muito além do desempenho nas provas. Barreiras tecnológicas, falta de informação e muitos processos formam um “muro” invisível para muitos estudantes da rede pública e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Foi a partir da constatação dessa realidade, vivida por muitos jovens de Porto Seguro, que surgiu o projeto “Portas para o Futuro: ENEM, SISU e Inclusão Universitária”.
A iniciativa busca orientar estudantes da rede pública e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) durante etapas importantes de acesso ao ensino superior. A proposta é ajudar de forma prática quem muitas vezes não conseguem avançar nesses processos por falta de orientação.
Segundo a coordenadora do projeto, professora Cristina Grobério Pazó, do curso de Direito da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a ideia é auxiliar esses alunos de forma prática em fases fundamentais, como o cadastro no GOV.br, a realização de um email e em passos importantes para a inscrição no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
“A preocupação era de que não tivesse empecilhos burocráticos ao acesso… de dar a consultoria mesmo para a parte burocrática do que é fundamental para a pessoa conseguir participar ativamente dessa situação”, explicou a docente.
Para a coordenadora, o ato de ajudar um estudante em uma inscrição é, no fundo, uma ação de reparação histórica, combatendo um sistema de ensino que sempre foi elitista e excludente no Brasil.
Além do suporte com inscrições e plataformas digitais, o projeto também nasce da própria experiência de quem enfrentou essas dificuldades. A monitora proponente da ação, Katharine Oliveira dos Santos, bacharela em Humanidades, relata que viveu muitos obstáculos antes de entrar na universidade. Vinda da rede pública, a estudante conta ter estudado e presenciado condições precárias: “Eu sou aluna de escola que chovia mais dentro do que fora…a gente sentava no chão e apoiava o caderno na cadeira para estudar”, conta Katharine.
Ela também relata que perdeu anos da vida acadêmica por não entender como funciona o Sistema de Seleção Unificada (SISU) e as chamadas do sistema. “O projeto nasce realmente da minha vivência e da vivência de pessoas às quais nós conhecemos. Já era para eu estar dentro da universidade há muitos anos”, relata Santos.
Mais que orientar estudantes, o projeto representa a continuidade do apoio que Katharine recebeu ao longo da vida. Segundo ela, embora a estrutura física de sua antiga escola fosse difícil, a dedicação e persistência da então diretora Márcia, que buscava os melhores livros e realizava simulados mesmo sem recursos, foi a semente de sua trajetória.
“Podia faltar água na escola, mas educação nunca faltou”, afirma a estudante.
Mais tarde, esse esforço obteve acolhimento técnico da professora Cristina Pazó, essencial para que a discente entendesse o sistema de cotas e ocupasse seu lugar na universidade. Para a estudante, essa rede de mulheres foi “o projeto acontecendo na prática” antes mesmo de virar um edital, provando que a motivação humana é o que realmente sustenta o sonho de estudar.
Um dos desafios encontrados pela equipe é o desconhecimento da população local sobre a própria instituição. Katharine relata que muitos moradores de Porto Seguro acreditam que a universidade federal é inacessível, escolhendo por cursos pagos por falta de informação. O diferencial do projeto é o acolhimento contínuo. Além de oficinas presenciais em escolas da rede pública, o grupo utiliza redes sociais como TikTok e grupos de WhatsApp para tirar dúvidas até o período de ocupação das vagas no início do ano seguinte.
Mesmo ainda no início, o projeto tem como proposta fazer com que mais pessoas da cidade ocupem espaços dentro da universidade pública. Para a estudante, o objetivo final vai muito além de conseguir horas de extensão. O foco está em ver rostos conhecidos da cidade ocupando o seu espaço na universidade.
“As horas contam para o currículo, mas ver a Dona Maria ou o Seu José ocupando uma vaga na universidade não tem preço”, afirma a monitora.
Dessa forma, a iniciativa busca aproximar a universidade da população e mostrar que o ensino superior também pertence aos estudantes da rede pública e aos moradores da região.