Estudo detecta contaminação por microplásticos em peixes de área preservada da Chapada Diamantina

3 de agosto de 2026
Estudo detecta contaminação por microplásticos em peixes de área preservada da Chapada Diamantina
Momento de coleta dos peixes sob análise - Crédito: Davi Galvão Nery

Por Sara Ramalho

Uma pesquisa recente ligada a um programa de pós-graduação da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) revelou altos níveis de contaminação por microplásticos em águas superficiais e em peixes provenientes de dois riachos situados dentro e fora do Parque Nacional da Chapada Diamantina. 

O estudo realizado por Davi Galvão Nery e utilizado como tese no Programa de Pós-Graduação em Sistemas Aquáticos Tropicais (PPGSAT), investigou, entre janeiro e dezembro de 2025, dez riachos espalhados pela região diamantina. Entre os dez, dois foram selecionados como foco de análise devido à maior quantidade de animais: o riacho Águas Claras e o rio Lençóis.

Os materiais poluentes conhecidos como “microplásticos” são fragmentos ou partículas de polímeros sintéticos menores que 5 milímetros de diâmetro. Eles poluem o meio ambiente e podem chegar aos humanos por conta da cadeia alimentar. Segundo Galvão, o impacto desses resíduos não se configura apenas como uma questão ecológica, mas também de saúde pública e segurança alimentar. 

Fragmento de microplástico – Crédito: Davi Galvão Nery

Os peixes ganham destaque na pesquisa devido à sua importância ecológica e alimentar. Segundo a tese, a ingestão direta ou indireta de microplásticos pode desencadear desequilíbrios biológicos e favorecer um processo conhecido como bioacumulação, no qual substâncias tóxicas são absorvidas e retidas no organismo. Com isso, esses contaminantes passam a se acumular ao longo da vida dos animais em uma velocidade maior do que conseguem ser metabolizados e eliminados.

Para a avaliação, foram coletados 56 peixes das espécies Astyanax lorien (lambari) e Moenkhausia diamantina (espécie de lambari original da Chapada Diamantina). Em laboratório, as amostras de água foram filtradas e os peixes foram dissecados, mantendo os tratos digestórios e as brânquias, e, posteriormente analisados em microscópios especiais.

iacho Águas Claras, na Chapada Diamantina – Crédito: Davi Galvão Nery

No riacho Águas Claras, localizado no interior do parque e distante de centros urbanos, constataram-se 38 microplásticos em águas superficiais e 75 em peixes. No rio Lençóis, situado fora do parque e influenciado por atividades humanas, foi registrado quase o triplo de contaminação, com 84 na água e 146 em peixes.

Segundo o pesquisador, foram encontrados diversos filamentos de tecido nos tratos digestivos dos animais e o maior acúmulo destes micro-poluentes se dá principalmente pelo descarte inadequado de objetos plásticos e pela lavagem de tecidos sintéticos: “Geralmente é mesmo de objetos plásticos. Especificamente neste trabalho, a gente supõe que é de roupa. São plásticos de roupa feitos por muitos fios. Então, como a minha região é o Rio Lençóis, tem um monte de pessoas lavando roupas em pedras dentro do rio. E aí a origem principal para esse trabalho seria mesmo de plásticos de origem têxtil”. 

Segundo a pesquisa, além de causar desvios comportamentais e problemas de reprodução nos animais aquáticos, ao chegar nos humanos que fazem consumo do pescado contaminado, os microplásticos podem causar, em casos mais sérios, danos celulares, estresse oxidativo, inflamação e desregulação hormonal, apontam estudos da área de toxicologia ambiental.

O estudo concluiu que a proximidade com áreas urbanizadas influencia diretamente a contaminação por microplásticos nos ecossistemas aquáticos, evidenciando que até mesmo unidades de conservação e sua fauna endêmica permanecem vulneráveis aos impactos da poluição global. Como forma de reduzir o acúmulo desses resíduos no meio ambiente, o pesquisador destaca a necessidade de adoção de produtos verdadeiramente biodegradáveis e livres de aditivos, além de investimentos em tratamento de água e gestão ambiental. 

O autor informa que a dissertação completa será disponibilizada em breve no site do Programa de Pós-Graduação em Sistemas Aquáticos Tropicais (PPGSAT), na seção destinada aos discentes e às defesas, em : www.ppgsat.net/

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