Covid longa: sequelas emocionais e cognitivas ainda afetam pessoas após a pandemia

4 de agosto de 2026
Covid longa: sequelas emocionais e cognitivas ainda afetam pessoas após a pandemia
A necessidade de anotações e listas de tarefas faz parte da rotina de muitas pessoas que enfrentam sequelas cognitivas após a infecção pela Covid-19 - Crédito: Ana Carolina Mont' Alvão

Por Ana Carolina Mont’ Alvão

O ano de 2020 ficou marcado pelo início da pandemia da COVID-19, período em que milhares de pessoas enfrentaram medo, isolamento e o afastamento social. Mesmo anos após a infecção, muitos indivíduos ainda convivem com sequelas emocionais, psicológicas e cognitivas causadas pela doença.

As complicações que surgem após a infecção pela COVID-19 ainda são pouco conhecidas por parte da população, que acredita que os prejuízos acontecem apenas durante o momento da doença. No entanto, algumas pessoas apresentam sintomas como perda de memória, dificuldade de concentração, além de agravamento de ansiedade ou depressão. Esse quadro é conhecido como covid longa e ocorre quando os sintomas continuam mesmo depois da recuperação da doença. De acordo com o Ministério da Saúde, 18,9% das pessoas que tiveram COVID-19 relataram sintomas persistentes após a infecção.

“Eu estava com muito medo de sintomas médios ou graves, mas não, eles foram leves. Só que o problema veio alguns meses depois da COVID”, conta Fernanda Ferreira, de 40 anos, de Brasília.

Fernanda conta que, depois de quatro anos, ainda enfrenta complicações causadas pela infecção, como ansiedade, dificuldade em lembrar-se de algumas palavras e problemas de memorização. “Até hoje, eu não consegui me recuperar cem por cento da memória. Eu sempre tive a memória boa, mas hoje eu sinto que preciso ler várias vezes para conseguir entender. Percebo que tenho uma dificuldade maior em fazer coisas que antes eram rápidas”, conta ela.

Esses sintomas são abordados na dissertação “Alterações neuropsicológicas, emocionais e comportamentais em indivíduos infectados pelo SARS-COV-2”, desenvolvida pelo médico doutor Ricardo Joseph, pesquisador da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). O estudo investiga os impactos neuropsicológicos e emocionais causados pela COVID-19 e mostra que muitos pacientes possuem sequelas como dificuldades cognitivas e a chamada “névoa mental”, que afeta a memória e a aprendizagem.

De acordo com o pesquisador, o processo de infecção acontece porque o vírus da COVID-19 consegue atingir diferentes partes do corpo, incluindo o cérebro. Isso, segundo ele, ocorre porque o organismo possui receptores presentes em regiões como nariz, pulmão, coração e cérebro, que facilitam a entrada do vírus no corpo humano. A partir disso, a contaminação pode causar alterações neurológicas e cognitivas relacionadas à covid longa.

“Esses sintomas atrapalham a vida das pessoas: tem pessoas que falam que ficam apagadas um tempo no dia, que fazem uma coisa e ficam apagadas por alguns minutos, que apenas depois se lembram onde estão”, relata Ricardo Joseph, autor da dissertação, sobre os relatos que escutou de pessoas com covid longa.

A “névoa mental” também é uma queixa comum entre indivíduos que tiveram a covid longa, segundo a pesquisa. Os sintomas são baixa energia, desorientação e dificuldade em se concentrar, sendo associados a alterações cognitivas, incluindo a diminuição da velocidade de processamento de informações. O médico explica que esses sintomas afetam atividades simples do dia a dia, como estudar, trabalhar e, afetando a qualidade de vida.

Máscara de proteção e lembretes espalhados representam as dificuldades de memória, concentração e organização relatadas por pessoas que convivem com sintomas da Covid longa – Crédito: Ana Carolina Mont’ Alvão 

A pesquisa analisou 52 pacientes que tiveram COVID-19 com o objetivo de entender os impactos emocionais, psicológicos e cognitivos causados pela doença. Entre os principais sintomas observados estão ansiedade, dificuldade de memória, concentração e aprendizagem. “A covid não é mais um problema atual de saúde pública, mas as sequelas que a covid deixou são sérias”, diz Ricardo Joseph.

Para as pessoas que ainda apresentam alguns sintomas que possam estar relacionados à covid longa, o pesquisador explica que é importante procurar acompanhamento psicológico, além de, quando possível, cuidados especializados para pessoas com covid longa. Segundo Joseph, o acompanhamento, treinamento de memória e ajuda social irão ajudar a diminuir o estresse e a ansiedade

Compromissos cotidianos, como estudar, fazer compras e participar de reuniões, podem ser afetados por sintomas como esquecimento e dificuldade de concentração ligados à Covid longa – Crédito: Ana Carolina Mont’ Alvão 

Mais informações sobre a pesquisa estão disponíveis no link: https://sigconteudo.ufsb.edu.br/arquivos/2025108223fca4116990420ed38c2816c/RICARDOJOSEPH_DISSERTAOFINAL.pdf

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