Por Flávio Moreira
Em diferentes comunidades rurais do Sul da Bahia, histórias que durante anos permaneceram apenas na memória dos moradores começaram a ganhar espaço em rodas de conversa, oficinas, mutirões e encontros comunitários. A iniciativa faz parte do projeto “Tecnologias Culturais e Sociais para o Campo: o poder da identidade”, que busca valorizar saberes tradicionais, fortalecer vínculos comunitários e incentivar a valorização da história e da cultura dos territórios rurais.
Desenvolvido por meio de ações de extensão da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), o projeto surgiu da necessidade de aproximar a universidade das comunidades e reconhecer conhecimentos construídos ao longo de gerações. As ações já passaram por diferentes territórios e espaços comunitários da região, entre eles o Assentamento Manoel Chinês, a Associação Pequenos Agricultores União e Trabalho (APAUT) e o Ilê Asé Obá Solá – Casa de Pai Aganjú.

Segundo a coordenadora do projeto, a professora Luzilea Brito de Oliveira, a proposta nasceu da necessidade de fortalecer a identidade cultural das comunidades rurais e ampliar o acesso da população a ações educativas e sociais. “O principal objetivo é promover a valorização da identidade cultural e fortalecer os vínculos entre universidade e comunidade”, destaca.
Para a coordenadora, esse processo vai além da preservação de tradições. A valorização da cultura local contribui para fortalecer a autoestima, o sentimento de pertencimento e a preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações.
Desde o início das atividades, já foram realizadas rodas de conversa, oficinas, atividades culturais, encontros de integração comunitária e ações coletivas voltadas ao fortalecimento dos espaços comunitários. Os moradores participam ativamente das atividades, compartilhando experiências e contribuindo para a construção das ações desenvolvidas pelo projeto. “O projeto busca enfrentar o apagamento cultural, a exclusão social e a desvalorização dos saberes tradicionais”, acrescenta.
A extensionista Giselle da Hora, que acompanha a iniciativa desde a fase de planejamento, explica que a participação da comunidade esteve presente em todas as etapas da construção das atividades: “As ações foram pensadas e estruturadas mediante visita técnica e diálogo com a liderança, que também participou ativamente da construção da proposta”.
Segundo ela, o trabalho envolveu visitas técnicas, reuniões de alinhamento, rodas de conversa e mutirões realizados junto aos moradores, incluindo ações de revitalização de espaços comunitários.
A experiência também marcou a extensionista em nível pessoal. Um dos momentos mais significativos aconteceu ainda na primeira visita à comunidade. “Nosso primeiro contato e partilha foi incrivelmente especial. Ouvir Eulália e ver a força e determinação daquela mulher se refletindo na comunidade foi algo muito significativo”, conta.
Para Giselle, a convivência com os moradores reforçou a importância do trabalho coletivo e do papel das lideranças comunitárias: “Uma mulher que se faz forte pelo coletivo fortalece gerações”.
Entre os estudantes envolvidos, a experiência também tem provocado reflexões sobre identidade, memória e pertencimento. A estudante e produtora cultural Flávia Layane Oliveira da Silva relata que um dos momentos mais marcantes aconteceu durante uma atividade realizada na comunidade: “A própria comunidade não conhecia a sua história. Isso foi extremamente impactante para mim.”
A observação reforçou a importância da preservação das memórias locais. Para Flávia, conhecer a história do território é um passo fundamental para fortalecer a identidade coletiva e incentivar a valorização da própria comunidade: “Os mais velhos têm muito para ensinar e poucas pessoas interessadas em aprender.”
Segundo a estudante, o contato com a comunidade proporcionou uma experiência transformadora. “Eu saí enriquecida. Foi uma experiência cultural maravilhosa”, resume.
Para o professor Robson Costa, um dos diferenciais do projeto está justamente na troca de conhecimentos entre os saberes acadêmicos e os conhecimentos construídos pelas comunidades: “A extensão vai além dos muros da universidade. Ela permite conhecer saberes que já existem nas comunidades e que muitas vezes não recebem o devido reconhecimento”. Segundo ele, muitos conhecimentos tradicionais carregam experiências acumuladas ao longo de gerações e precisam ser valorizados.

Robson defende que preservar a identidade cultural não significa impedir o desenvolvimento ou afastar as comunidades das transformações do mundo contemporâneo. “Preservar e valorizar precisam caminhar juntos. É possível fortalecer a identidade cultural sem perder as raízes da comunidade.”
Após uma das atividades promovidas pelo projeto, a liderança comunitária Eulália Muniz compartilhou uma mensagem de agradecimento aos participantes, destacando a mobilização coletiva construída durante as ações: “Ver tantas pessoas envolvidas e dispostas a contribuir foi algo muito especial”. Ela também destacou a participação dos moradores durante os mutirões realizados na comunidade: “A presença da comunidade, mesmo em um dia tão chuvoso, mostra a força da união, da fé e da esperança que carregamos dentro de nós”.
Os impactos das ações já começam a ser percebidos pelos participantes. Segundo Luzilea, muitos moradores relatam uma maior valorização das próprias histórias, tradições e identidades após participarem das atividades.
Além disso, segundo ela, as ações têm contribuído para fortalecer a autoestima, o senso de pertencimento e o diálogo entre comunidade e universidade. A equipe também pretende ampliar as atividades nos próximos meses, fortalecendo parcerias e levando o projeto para outras comunidades rurais da região. “Valorizar a identidade cultural é fundamental para preservar memórias, fortalecer comunidades e construir uma sociedade mais justa e inclusiva”, ressalta a coordenadora.

Interessados no projeto podem entrar em contato com a coordenadora, Luzilea de Oliveira, pelo e-mail: luzileaboliveira@ufsb.edu.br