Arte e etnicidade: mural coletivo promove reflexões em colégio de Prado (BA) 

31 de julho de 2026
Resultado final do mural feito a partir da pesquisa e com a parceira dos alunos. Crédito: Maria Carolina da Silva Nascimento.

Por Larissa Silva

Uma pesquisa de mestrado transformou o espaço de um colégio estadual situado no território de Prado (BA). A ação, desenvolvida para o Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER), utilizou a arte como ferramenta pedagógica para criar um mural artístico inspirado na realidade étnica do município. 

O estudo desenvolvido pela professora Maria Carolina da Silva Nascimento investigou as resistências negras e indígenas na comunidade pradense e buscou gerar reflexões sobre etnicidade na região. Além disso, analisou como a arte, especialmente em murais, que são pinturas feitas em paredes, pode estimular o debate sobre identidade, memória e resistência étnico-racial na comunidade e no ambiente escolar.

A escolha do tema também se relaciona com a trajetória pessoal da pesquisadora. Carolina, que é natural de Alcobaça (BA), relata que, desde a época da faculdade, já realizava trabalhos artísticos voltados para as relações étnico-raciais. Ela ainda destaca que sua cidade, por ser majoritariamente negra, tem uma cultura muito ligada com a ancestralidade, o que a levou a pintar obras que retratassem isso. “Quando eu conheci o programa, eu associei logo ele à minha arte, mais do que a minha formação em história. Aí eu falei: cara, mesmo que eu não seja formada em artes, eu quero fazer uma pesquisa voltada para as artes, porque esse programa dialoga com a minha parte educadora e com o que eu costumo pintar na minha arte”, explica Maria. 

Prado é um local marcado por uma forte presença de pessoas negras e indígenas. De acordo com o Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o lugar conta com uma população de 35.003 habitantes, sendo que 6.137 (17,53% desse total) se autodeclararam pretos, enquanto 6.086 (17,39%), indígenas.  

Maria explica que no início, a iniciativa iria acontecer em Alcobaça e teria foco na cultura negra. Porém, com sua mudança para Prado, ficou improvável falar do tema sem citar os indígenas. “No contexto de Prado, é impossível falar de relações étnico-raciais, de identidade, sem falar da presença indígena. Seria um silenciamento, na minha percepção, seria uma coisa muito distante da realidade de Prado”, afirma. 

Foi a partir desse contexto que a pesquisa utilizou a arte como uma maneira de aproximar os estudantes do colégio do tema. Inicialmente, seriam produzidos dois murais separados, um tratando sobre as representações étnicas negras e outro sobre as indígenas. Porém, os alunos perceberam que essas identidades estão conectadas no cotidiano do município e não poderiam ser tratadas de forma isolada. Como resultado final, foi produzido um único mural, reunindo ambas representações na mesma obra. 

O mural foi feito no Colégio Estadual de Tempo Integral Homero Pires, em coautoria de Carolina com os estudantes, e também foi inspirado em pessoas reais da aldeia Pequi, região de Prado. Maressa Pinheiro Nunes, pataxó de 19 anos, foi uma das estudantes que atuou no projeto, sendo inclusive representada na pintura. Ela conta que, mesmo crescendo em uma aldeia indígena, sabia pouco sobre o seu povo e que, ao participar da iniciativa, pôde aprender um pouco mais sobre a sua história e a de outros povos.

A obra também representou indígenas com características físicas diferentes, com o intuito de romper com os estereótipos que foram criados pela sociedade. Nunes também explica que a obra é importante pois gera uma reflexão na população sobre o que é ser indígena. “No ambiente escolar e na região do Prado, é importante porque traz uma conscientização de que existe indígena além do indígena que os livros didáticos representam”, explica Pinheiro. 

O impacto da arte ultrapassa aqueles que participaram de sua construção. Para Eduardo Pataxó, 23, estudante do curso de Jornalismo da UFSB, ações como essa ajudam a dar visibilidade e valorizar a história e cultura de seu povo. “Pra gente, tem símbolos que são muito grandes e que são muito importantes para a nossa história do nosso povo, e isso é pouco representado. Então, quando eu vejo essa representação sendo passada adiante, nem que seja em algum espaço, em algum mural, eu já me sinto vitorioso”, afirma o aluno. 

Rebeca Maria, artista de 19 anos, que também participou da criação da pintura, espera que a iniciativa possa incentivar a população a conhecer melhor suas origens e a diversidade cultural do lugar. “Que aqueles que não sabem sua origem, se sintam abraçados para buscar saber sobre a miscigenação extraordinária e as culturas diversas”, destaca Maria.

Orientada por Lúcia de Fátima Oliveira de Jesus, a pesquisa Mural Coletivo de Resistência Étnica: A arte como experiência educativa em Prado/BA,  pode ser consultada na página do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER)

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