Estudo analisa impactos das mudanças climáticas sobre as raias-manta

Pesquisa realizada na UESC mostra como temperatura, correntes oceânicas, qualidade da água e disponibilidade de alimento influenciam a presença dos animais
21 de agosto de 2026
Estudo analisa impactos das mudanças climáticas sobre as raias-manta
Raia-manta nada entre cardume durante mergulho Registro mostra a interação da espécie com outras formas de vida presentes no ambiente marinho. (Crédito: Luiza Gomes, Leo Francini, Maurício Andrade, Erika Beux e Nauther Andres/Arquivo do Projeto Mantas do Brasil)

Por Aleff Cláudio

A pesquisadora Letícia Schabiuk Cruz utilizou dados da ciência cidadã e bancos de dados internacionais para estudar as raias-manta e entender como fatores ambientais e as mudanças climáticas podem impactar a sobrevivência dessas espécies nos oceanos.

Graduada em Oceanografia, Letícia realizou seu mestrado na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), com foco na vida das raias-manta, também conhecidas por outros nomes populares, como morcego-do-mar, peixe-diabo, raia-diabo e jamanta. Em sua dissertação, ela destaca a importância dos estudos climáticos e da ciência cidadã para a conservação dessas espécies.

Mergulhadora registra raia-manta em alto-mar. Encontro entre mergulhador e animal revela a presença das mantas em seu ambiente natural. (Crédito: Luiza Gomes, Leo Francini, Maurício Andrade, Erika Beux e Nauther Andres/Arquivo do Projeto Mantas do Brasil)

Quando era criança, Letícia já tinha contato com o mar. Nascida e criada em São Paulo, sua família possuía uma casa próxima à praia e, sempre que podia, observava o oceano. “O mar é um grande mistério”, afirma. Ao concluir o ensino médio, decidiu que queria estudar e conhecer mais sobre os oceanos. Prestou vestibular e conseguiu uma bolsa de 100% pelo Prouni na Faculdade São Judas Tadeu, em São Paulo.

As raias-manta despertaram sua curiosidade e a motivaram a realizar o mestrado na UESC, em Ilhéus, na Bahia. Quando iniciou sua trajetória na pesquisa, chegou até a pensar em desistir. “Sou mulher e, nessa área de pesquisa, sofri um pouco por causa do machismo”, relata. Mesmo enfrentando essas dificuldades, não desistiu e conseguiu concluir o mestrado.

Atualmente, Leticia é coordenadora executiva do Projeto Mantas do Brasil, iniciativa que percorre o país compartilhando conhecimentos sobre as raias-manta e conscientizando a população sobre a importância da preservação desses animais. O projeto já passou por mais de sete estados brasileiros, levando informação, divulgação científica e incentivando a conservação marinha por meio da aproximação entre pesquisadores e a sociedade.

Em sua dissertação, a pesquisadora buscou entender onde as raias-manta vivem e quais condições do oceano influenciam sua presença. Para isso, utilizou bancos de dados internacionais, como o GBIF (Global Biodiversity Information Facility), uma rede global que reúne informações sobre a biodiversidade de diferentes regiões do planeta, e o OBIS (Ocean Biodiversity Information System), plataforma que concentra registros sobre a biodiversidade dos oceanos. A pesquisa também utilizou dados da Marinha do Brasil, que reúne informações sobre a biodiversidade marinha.

A tecnologia esteve presente em praticamente 100% da pesquisa. Por meio dela, foi possível analisar registros de avistamentos das mantas e cruzar informações sobre temperatura da água, profundidade, distância da costa, correntes marinhas e outros fatores ambientais que ajudaram a compreender melhor a distribuição dessas espécies nos oceanos.

Segundo Letícia, uma das partes mais desafiadoras do estudo foi não realizar pesquisas de campo durante a elaboração da dissertação e precisar confiar nos dados já disponíveis nessas plataformas. “Tive que acreditar nos dados já divulgados nessas plataformas”, afirma. Apesar disso, ela já havia realizado mergulhos anteriormente, experiência que contribuiu para sua compreensão do ambiente marinho e das espécies estudadas.

Mergulhadora registra a vida marinha durante expedição. Atividade de mergulho permite observar de perto o ambiente onde vivem as raias-manta. (Crédito: Luiza Gomes, Leo Francini, Maurício Andrade, Erika Beux e Nauther Andres/Arquivo do Projeto Mantas do Brasil)

A pesquisa analisou cinco espécies de mantas: Mobula birostris, Mobula alfredi, Mobula tarapacana, Mobula thurstoni e Mobula munkiana. Segundo Letícia Schabiuk, apesar das diferenças entre elas, no Brasil a maioria é conhecida popularmente apenas como raia-manta.

As raias-manta vivem em diferentes regiões do oceano. Algumas preferem águas mais profundas e quentes, enquanto outras permanecem mais próximas da superfície. Elas também apresentam tamanhos variados. A maior espécie analisada na pesquisa foi a Mobula birostris, que pode atingir cerca de sete metros de envergadura.

Os resultados mostraram que fatores como a qualidade da água, as correntes oceânicas e a disponibilidade de alimento influenciam diretamente onde esses animais podem ser encontrados.

O estudo também analisou os possíveis impactos das mudanças climáticas sobre essas espécies. Segundo Letícia, alterações na temperatura dos oceanos podem influenciar a distribuição das mantas ao longo dos próximos anos. Entender onde as raias-manta vivem e quais condições favorecem sua presença ajuda pesquisadores e órgãos ambientais a desenvolver estratégias de conservação e proteger áreas importantes para a sobrevivência desses animais.

As mantas vivem em áreas específicas do oceano e não são consideradas animais perigosos. São animais dóceis e normalmente não oferecem riscos aos seres humanos. Letícia explica que o tamanho desses animais pode impressionar. “As raias-manta são grandes e podem até assustar, mas são animais indefesos”, afirma.

Apesar de não terem contato frequente com pessoas, Letícia explica uma técnica que pode ser utilizada ao entrar no mar. A recomendação é caminhar arrastando os pés na areia. Dessa forma, as arraias percebem a movimentação e se afastam antes da aproximação das pessoas. As mantas não representam perigo para os banhistas, mas outras espécies de arraias podem utilizar o ferrão quando se sentem ameaçadas.

Hoje, as raias-manta são consideradas espécies ameaçadas. Embora a pesca e o consumo desses animais sejam proibidos no Brasil, em alguns países essa prática ainda ocorre. Segundo a pesquisadora, em regiões da Ásia as mantas são capturadas principalmente para usos medicinais tradicionais, apesar de não existirem comprovações científicas dos benefícios atribuídos a elas.

A pesquisadora destaca também a importância da ciência cidadã, que fez parte do desenvolvimento de sua pesquisa e hoje é uma das áreas em que atua. Parte das informações utilizadas no estudo veio de registros feitos por mergulhadores, fotógrafos, turistas e outras pessoas que observam a vida marinha e compartilham esses dados em plataformas utilizadas por pesquisadores de diversas partes do mundo.

Segundo Schabiuk, a ciência cidadã é uma das ferramentas mais importantes para aproximar a sociedade da biodiversidade. Ela explica que qualquer pessoa pode contribuir para a pesquisa científica, seja por meio de uma fotografia, do registro de um animal ou de uma observação feita na natureza. “A ciência cidadã também desperta o interesse das pessoas em conhecer a biodiversidade e é uma forma de conservação. Qualquer pessoa pode ajudar a ciência compartilhando informações e registros”, afirma a pesquisadora.

Segundo Letícia, recentemente uma pesquisadora brasileira participou da identificação de uma nova espécie de manta. Ela pretende realizar novos estudos para aprofundar os conhecimentos obtidos durante sua pesquisa. O trabalho está disponível no site do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da UESC (PPGECB).

Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da UESC 

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